
Esse texto não é só meu. Ainda que a minha cabeça seja palco de um provável show de horrores, esse em questão parece ter nascido de mim mas também de algo mais. Seria interessante dizer que ele é também um texto muito contingente (ainda que isso, de fato, não o explique por completo). Assim que me veio a idéia, dois dias e duas noites depois, veio mais uma briga com a Amanda. Era outro texto para ela, mas que falava também de nosso relacionamento. E eis que, entre a briga, volta o maldito escrito no meio do meu caderno de poesias sendo corroborado por aquele instante em que tudo que eu queria era me livrar daquela maldita mulher (da minha vida) por um tempo. Desse modo, o texto também é dela. Não assinado mas escrito com a cabeça quente e uma vontade de ficar juntos que talvez, observadores externos, não identificariam debaixo de muitas lágrimas e ofensas.
Agora, voltemos sete meses atrás.
Para os que convivem comigo e com ela não é surpresa eu dizer que o meu relacionamento com a Amanda é a confirmação inquestionável do axioma de que “os opostos se atraem”. Não no sentido da subjetividade: falo de outro campo. Acompanhado das fodas mais alucinantes da minha vida; das conversas filosóficas-políticas-sexuais-humorísticas-econômicas que eu jamais imaginaria ter com uma mulher no auge de seus 23 anos; e da forma de me apaixonar mais implacável e inexplicável que eu possa descrever, tudo o que estávamos construindo caminhava de mãos dadas com os arranca-rabos mais dignos dos roteiros mais violentos da história dos romances escarninhos do cinema hollywoodiano água com açúcar. É nesse ponto que o primeiro parágrafo faz sentido e digo o que vim fazer aqui: não há modo mais racional e simples do que explicar nosso relacionamento pela dialética marxista (Vivaaaaaaaaaaaaa! Uma salva de palmas) e vice-versa.
Sim, porque faz total sentido. Sem querer bancar o Zezinho da Esquerda chato e apaixonado, mas comunistas sempre foram taxados de insensíveis pedófilos para baixo. Eu cultivo essa tradição com um personagem mal humorado, óbvio. Mas assim como o Marx tinha a Jenny, eu tenho a Amanda (e antes que alguém faça uma piadinha maldosa sobre a minha masculinidade, garanto que na minha estória não tem nenhum Engels para levantar suspeita).
O amadurecimento de ambos os lados de nosso namoro só foi possível graças à total displicência com a qual agíamos um com o outro quando alguém decidia rodar a baiana. Confesso que eu sempre fui o esquentadinho da vez. Meu pavio sempre foi das proporções de uma espécie do Reino Fungi (quero parecer inteligente mas não faço a mais remota idéia de um bicho que componha esse reino, espero somente que eles sejam muito pequenos). Eu explodia em um acesso de raiva digno de um possível semelhante masculino da TPM. Ela agüentava como podia eu desfilar minha arrogância, pedantismo, orgulho, argumentação barata e ironia. Algumas vezes, porém, era praticamente impossível que ela saísse ilesa da minha tortura psicológica e maquiavélica de interferi-la em uma frase só para dizer que ela estava baseando nossa briga em “conceitos metodologicamente errados”. É, eu sei. É dose.
- Culpa dela também, que aguentou seu jeito e não quis ir embora!
Belíssima observação leitor(a), eu só mudaria uma coisa: “Obrigado a ela, que aguentou meu jeito e não foi embora (para sempre)”. Não fosse por toda a extrema passionalidade com a qual nos envolvemos, não teríamos descoberto ao todo, aquilo que realmente agrada e desagrada no outro. Relacionar-se não é só aceitar qualidades, mas também defeitos. Ela jamais acharia charmoso o jeito com o qual eu arqueio a minha sobrancelha ou faço bico durante uma briga. Talvez eu demorasse a ver toda a fibra e determinação que eu tanto amo pulsando abaixo da pele da mulher mais delicada e sensível que eu conheci. Faz parte de toda a projeção e identificação quando você realmente ama uma pessoa. E é justamente aí que a figura dos camaradas me chamou a atenção e eu vi o marxismo no nosso relacionamento. Machucar a ela, feria muito mais a mim que qualquer outra coisa.
Um conto enorme nasceu da conclusão óbvia que agindo daquela maneira, eu só a estava perdendo para uma gama enorme de sujeitos iguais a mim, várias facetas do meu orgulho insensato. Ao ver o meu orgulho por completo, eu acertei em cheio um tiro na minha lógica e em meu sentimento. Eu estava magoando um ser sem o qual, a minha existência não significava mais nada. Após eu tê-la conhecido, um caderno velho de poesias se abriu, meus dedos buscaram outros acordes para o violão, minhas leituras foram redirecionadas para um patamar muito mais crítico e significativo. Pode parecer um escrito piegas sobre uma alma gêmea, mas o sentimento que tenho é irreprodutível fora desses clichês.
Daí, as contendas – inexpurgáveis de qualquer vida em casal – tomaram rumos curiosos. Não faltava mais a certeza de ficar junto. Nem o obstáculo de viver a dois durante dois ou três meses (um real teste para o relacionamento, em minha opinião) reverteu o que tínhamos: uma vontade incontestável de ficar juntos. Sempre. Toda hora. Sem folga (de preferência transando). Logo, nossas brigas já não tinham mais porquê. Eram pretextos irrisórios perante o grande circo que armávamos a partir do meu sangue de meus socos na parede ou dos cacos de vidro dos copos que ela quebrava. Algumas vezes, simplesmente a falta de sexo em um dia da semana nos fazia virar bichos. A lacuna daquelas horas em que o mundo para nós acabava gerava brigas de séculos, até que a falta fosse suprida. Isso às vezes sem que o outro comunicasse ao outro. Era tanto tesão, tanta vontade de ficar junto após um orgasmo absurdo que as resultantes eram palavras inoportunas e expressões que seriam atentados ao pudor mesmo para esse blog (Exatamente. Mesmo para ESSE blog).
E do amor nasce o ódio. Só com o choro incontrolável e a raiva mais diabólica é que encontramos o colo solícito do outro. O meu ela encontra com um pouco mais de dificuldade, mas com a mesma sinceridade. O sentimento só faz sentido, justamente, no momento em que ele treme. Quando eu flerto com a morte da minha alma no momento de perdê-la. É brigar e ficar separado. Só em um quarto enquanto ela chora na cozinha. É a distância exata para que quando eu cruze com ela no corredor a caminho do banheiro a tristeza acabe comigo e me faça abraçá-la. Olhar nos olhos dela, cheios d’água e tristeza e chegar a conclusão: “Que merda! Eu fui um estúpido.” Só quando o pedido de desculpa dói em você, é que o amor completou seu ciclo e a felicidade espera para entrar no relacionamento e preparar terreno para uma nova guerra.
E daí, segue tudo. Ela reclamando que eu estou bonito e cheiroso demais para ir ao trabalho. Ou com o cabelo cortado e a barba feita. Ciumenta como uma leoa. Mas, ai de mim que ande amassado e fedido no meio da rua. Durmo no sofá. Cabelo grande demais é quase motivo para greve de sexo. Contraditório? Jamais. Com tudo o que temos e vivemos, o paradoxo latente do nosso namoro é mais do que fundamental. Há horas em que eu discordo do que ela fala só por esporte. Só por debater com alguém que, de fato, irá me entender. Só para deixá-la meio puta por eu ter discordado da concepção adorniana dela do conceito de aura de Benjamin. Só ela para ler lacanianamente minhas poesias.
E após dois dias com esse texto martelando em minha cabeça, veio a briga citada no início, onde não só eu, mas ela também, percebemos mais uma vez que não estávamos chegando a lugar algum com nossa briga. Apenas medindo egos e argumentos como tantas outras vezes. E nessa briga veio o pensamento que estalou tudo, não por nada, mas por simbolizar a dialética e a contradição de modo lapidar. Se ela estava perto, eu a queria longe. Se estava longe, queria a meia distância. Se a meia distância, eu a queria perto. O mais fascinante é como a contingência histórica, conceito muito caro ao marxismo, encaixou-se perfeitamente. Percebi a dialética hegeliana e a finalizei com o materialismo histórico.
Não importa como, onde ou que belos sonhos tenhamos: relacionar-se é trabalhar defeitos e contra-sensos. Irrelevar as manias que ela tem até que ela mude, ou me adaptar ao que ela é e aceita-la como a mulher que escolho todos os dias. Ou mesmo, não revelar aquela velha mania que ela tem só por ser desnecessário. Faz parte dela. E a voz dela. O jeito dela. É preciso coragem e determinação para estabilizar-se com o vento e não ceder. Encontrar no pior defeito o que compõe o todo belo e majestoso que é o meu pé de jabuticaba. Não adianta viver nas projeções e idealizações o tempo todo se elas não forem revistas e desmentidas pela materialidade da vida.
O medo e a confusão que me tomavam durante os rompantes de raiva deram lugar a minha imagem com a qual eu devo dialogar. Machuca-la é machucar a mim mesmo. Entretanto, todas as feridas de guerra são recordações do tempo que passou e do que já foi suplantado em nome de um bem maior. E desse amor a mim mesmo, ódio a ela, ódio a mim mesmo e amor a ela eu tiro tudo. Tudo o que compõe o quadro irretocável que pintamos e que nos guiou até a melhor coisa que já aconteceu em nossas vidas. E ter essa imagem me faz buscar o melhor, a mudança. A perfeição permanecerá um ideal vago em um céu que contemplo enquanto ela dorme sobre meu corpo suado. Um calor dos diabos e essa mulher jogada em cima de mim. Não existe nada melhor no mundo que esse desconforto. É a certeza de que ela acordará ao meu lado.
E a certeza também de que todas as frases de ódio que eu digo a ela são também as mais puras declarações de amor que eu possa verbalizar.
Só uma pessoa muito estudiosa, criativa e inteligente para transitar tão bem entre conceitos explicados de forma tão complexa no meio acadêmico. Você é brilhante e isso eu sempre soube, pelos olhares, gestos, respostas imediatas e piadas precisas que ouço desde o início de nossa convivência. Fomos um casal improvável, quem poderia imaginar? Depois de toda sede que matei da sua voz em noites intermináveis, dos sonhos com seus beijos e abraços e p#@¨%$&, um namoro da menina descompromissada e cruel com o rapaz quieto e recém-solteirão-lindo-genial-divertido-escritor. Dá certo. Brigas regadas a muito calor. Nunca fui embora, não vou embora e não tenho vontade em NENHUM momento de ir, quero você como todas as vezes, deitada em seu peito, pensei em arrumar um jeito de te fazer ficar. Não adianta o Sol, o Calor do verão, a cama pequena, EU NÃO SAIO DE CIMA DE VOCÊ, só durmo assim, cacete! Enfim, belo texto, excelente descrição do Amor apaixonado e infinito que tenho por tudo o que você representa. Eu me emociono, ainda meio em dúvida, isso existe mesmo? Deve ser assim, deve ser isso que algumas pessoas sortudas descrevem e sofrem e vivem até a última gota, como diria Clarice, NÃO MATA!
ResponderExcluirOBS: Não adianta me chamar de maldita mulher, EU NÃO LIGO!!!
OBS²: Sou menos ciumenta que uma leoa...rsrs...
Caramba, Thales, nunca tinha visto alguém pautar seus sentimentos em teorias academicistas. E, mais, fazer isso bem, fazendo sentido e senso sensível.
ResponderExcluirEu só consegui entender Marx, Hegel e sua dialética qdo criei pra mim uma metáfora visual. A dialética hegeliana, pra mim, é uma espiral que tende a perfeição. Tese, antítese e síntese se completam e constroem um caminho que se nega e se afirma na mudança para o bem, para o belo e, no seu caso, para o amor.
Eu e meu namorado nunca vivemos brigas homéricas. Mas também nunca convivemos efetivamente. Ele mora lá. Eu aqui. Nos amamos imensamente e isso faz sustentar as dores da saudade e da distância.
Seu texto me fez ver, mais uma vez o qto é bom se relacionar com alguém e ir construindo espirais por aí.
Valeu!
Clara
Brother...
ResponderExcluirÉ, sem dúvida, umas das "cartas de amor" mais belas que já li. Me chame do que quiser, mas emociona!
Abraço, e sortuda msm e a Amanda! =P
perfeito cara, sem palavras.
ResponderExcluirvou linkar no meu ultimo texto, pra ver se ele tem algo que presta, uaHAhUaH
Das opções, as belas palavras articuladas e cobertas de sentimentos perceptiveís mesmo virtualmente, deixam transparecer que se trata da mais bela declaração de amor!!!
ResponderExcluirParabéns pelo texto e parabéns a Amanda!