
Haveria de chegar esse dia tão temido. Fatídico e desgastante. A Amanda leu meu blog. “E quem é Amanda?”, pergunta você. Ela é a preta. A minha preta. Meu pé de jabuticaba, minha menina, minha coleção de Pink Floyd, meus livros do James Joyce, meu bebê e todos os outros pseudônimos fofinhos que os namorados usam e que eu não contaria a qualquer um desse modo, sem nenhuma vergonha. Só exponho aqui porque é uma forma de evitar ler a frase “Oh! Que bonitinho” escrita em sua cara. Principalmente porque eu fico extremamente constrangido em passear pelo esteriótipo do "bonitinho".
Mais ainda assim eu não respondi a relevância dela nesse post. Pois bem: para além de ser uma mulher exuberante, daquelas que passam na rua e não há homem - desde o gentleman até o adolescente punheteiro – que não olhe. Ela é sedutora, desenvolta, simpática, interessante, charmosa e cozinha como a sua avó. Isso mesmo, aquela velhinha que você sempre julgou ser uma lenda; que habita seu imaginário entre os bolos fofinhos e o pato assado ao molho primavera. Então: perante a Amanda, ela não passa de um mendigo de Manhattan fazendo feijão em uma lata. (Ponto-parágrafo)
E por que ponto-parágrafo? Para falar de uma característica dela em particular, que é das mais atraentes. Ela é inteligente. Mas, espera: você ainda não entendeu. Ela é truculentamente inteligente. Retomando o exemplo de sua avó: hipoteticamente imagine que a coroa, além das peripécias na cozinha, reservasse um tempo de sua vida à filosofia e indagações extremamente originais sobre a natureza da vida, dos sentimentos e do sujeito. Ainda assim, a Amanda te faria ter vontade de ser neto do mendigo. Simplesmente, porque ela flutua entre os pensamentos mais interessantes e curiosos do mundo da mesma forma com que modula sua voz calmamente de um Lá maior para um Lá com sétima enquanto canta Marisa Monte. É lindo. É a simplicidade e a beleza que existem para muito além da técnica vocal ou da metodologia do pensar. Provém da inserção doce que ela instaura num mundo de melodias, do seu dançar na ponta dos pés, do sorriso que expreme e aperta o olhar. É sorver a vida com uma sede de duas horas de viagem. De sorrir. É ser inteligente nos símbolos mais banais da rotina.
Ela já havia me proposto a criação de um blog. Leitora de uma ou duas crônicas minhas. Inúmeras poesias (que eu só tenho coragem de mostrar a ela). Ela acha que eu escrevo bem. Eu acho que não. Ela me olha com aquela cara de “Pára de falsa modéstia”. Eu tenho vontade de apertá-la até esmigalhar todos os lindos ossinhos dela. Acontece o seguinte: geralmente o que eu escrevo é a variação de uma coleção ou outra de piadinhas, regadas a muita ironia e um pouco da minha presunção quanto a isso. Adoro fazer descobertas indiferentes, mas que me possibilitem falar merda. Expor um pouco mais do que eu sou entre o cara bonitinho-e-de-cabelo-cortado-do-trabalho e um maluco que quer profetizar o futuro das Teorias da Comunicação. E aí, sai isso. E eu geralmente mostro-me mais com essa face no que escrevo. Mas... (tudo tem um mas).
Ora, você não acha que eu mostrei meus textos loucos e prolixos a Amanda? O Thales sarcástico, profano e amoral ficou na gaveta divertindo-se com sua coleção de Playboys (Mentira, amor! Já joguei tudo fora). Quem eu mostrei foi o super sensível e existencial das crônicas à La Joyce. Nas poesias, meu eu lírico é um odioso deprimido ou um marxista cheio de raiva. Sobra muito pouco espaço para o “duplo sentido”. Tudo que escrevo tem um quê de triste, cinza e desesperançoso. Eu não iria dar a bandeira de mostrar meus textos escatológicos e cheios de pornografia barata. Era um começo do namoro. Ainda havia um certo receio quanto a minha reputação com ela. Gosto de ser elogiado por ela. Como ela diz, massageia o ego. Como eu digo, masturba o ego. Ignorando o verbo da preferência (apesar de achar que massagem e masturbação no fundo sempre tem uma interseção no que diz respeito a sexo) nós temos visões diferentes da vida. Como todo mundo. Umas mais latentes. Outras não. E eu já suspeitava que ela, admiradora de Clarice Lispector e Carlos Drummond não iria gostar dos meus textos. Apesar de ela conhecer a fase pornochanchada do Drummond (e ainda assim resta o enorme abismo que existe entre o Itabirano e eu).
E o que aconteceu, oh, amigo leitor? Ela, de fato, gostou dos meus textos. Ainda resta uma faísca de originalidade no que digo. Não sei se ela será freqüentadora assídua. Talvez ela se canse deles. Mas o problema, amigo(a) é que ela magoou meu coração. (E você achando que ela era a mulher perfeita, né?). Vocês acreditam, que eu, um cara tão legal e bacana fui acusado injustamente de ser exagerado, irônico, machista, parecia que meu texto estava sendo escrito para ser, de fato, lido e eu parecia um EMO. Nãããããããõ???
Exagerado? Confere. Irônico? Não (por favor, perceba as ironias). Machista? Tá bom, vai. Um pouquinho. Escrevendo para ser lido? Óbvio. EMO?... EMO?... EEEEEEMO?
- Professor, o EMO faltou de novo.
Ok, continuemos sem ele.
Eu tinha pleno e total conhecimento de que estava escrevendo aqui sob esses signos. Qualquer um sabe que eu não me nego a ser engraçadinho. Adoro. Treinei para isso. Juro. Em frente ao espelho. É sério. Juro. E quando a gente quer ser engraçado há a rendição a inúmeros personagens. Sim: personagens. A vida é um misto de ficção e realidade. Temos arquétipos, ideais, projeções, fantasmas e utopias que alimentamos incessantemente. Não se trabalha na realidade sem o apoio do imaginário e vice-versa. E eu, de fato, encarno certas máscaras que, às vezes, nem eu mesmo me dou conta. Vai dizer que você não exagera? Vai dizer que um pouco abaixo do nível do seu chuveiro não existe um palco? Vai dizer que sua roupinha entrou sozinha no seu corpo e com ela você não diz nada?
E eu sou assim. Exagerado, irônico e corrosivo, muitas vezes. Mas isso não significa que estão ausentes a sensibilidade, os questionamentos e as frustrações de um ser tão humano quanto você. Que idealiza e imagina tanto quanto você. Que exagera tanto como você. Como você e como todo mundo. É a práxis da vida.
Eu escolho essa forma: a do humor. É uma forma de aceitar esse simulacro de uma forma mais útil. Humor nas mais variadas formas. Não sou muito metódico quanto a isso. Já viu “Eu Fico Puto”? Terça Insana? Então: aquilo. Eu sou eternamente refém desse momento em que o popular, o brusco, o palavrão, o que você não diz na ceia de Natal irrompe e desestabiliza. É você mandar aquela velhinha, ícone etéreo e imaculado da boa moral, ir tomar no cu. Talvez hoje, o que isso represente fique disfarçado muito bem sob os imperativos e apelos dos “Zorra Total” e “A Praça é Nossa” da vida. Martin-Barbero já diz em seu “Dos Meios às Mediações” que isso é o grotesco, o periférico e marginal que rejeitamos tentando impor-se na base da porrada. E isso não quer dizer então que eu sou um cavaleiro honrado e corajoso, cavalgando em verdes campos, levando a tiracolo o tremular da bandeira dos fracos e oprimidos enquanto assobio a melodia da Internacional Comunista. Falta-me o cavalo.
E caso eu o tivesse: não teria onde guardar. E seria uma hipocrisia fazer isso quando eu me rendo a uma Pringles de R$10,00 ou um desodorante com a embalagem mais bonita. Digo e repito: isso é um recurso. Textual. Esses textos são produzidos para alguém, não para outros.
Aí é que entra a parte legal da estória.
Mesmo ciente de tudo isso: das manipulações, das frases feitas; dos exageros e com a quase certeza de que a Amanda me criticaria, eu fiz charminho (E não me olhe com essa cara de “Seu baitola! Fazendo charminho, é?!” porque você também faz). Como assim, na minha cara, ela havia dito que meu texto é exagerado, forçado, machista e – essa eu adorei ouvir – “fiquei com vergonha de mostrar ao meu pai”? Como? Sacanagem! Ela devia molestar mais um pouquinho o meu narcisismo com as formulações a respeito da vida que ela retirou de meus escritos. Ora, pelo santo Deus, ela é minha namorada. Ela iria ter que passar pelo meu drama piegas para me reconquistar. Estou errado em cobrar que ela me apóie nesse momento? Que ela me ajude a continuar com esses escritos imensos e tortuosos? É pedir muito?
Pedir mais só se eu chegasse mal-humorado no McDonald’s, xingasse a atendente, tentasse pechinchar um Big Mac, tentasse descolar o brinquedo do McLanche Feliz e ainda esperasse que ninguém houvesse cuspido no meu hambúrguer.
Sucumbi ao paradoxo da minha própria sinceridade. Não agüentei ouvir a verdade. Fiz charme mesmo. Queria amor. Carinho. Compreensão. Meu blog é ótimo. Meu blog é interessante. Meu blog é tudo. Só não é uma coisa: anti-dialético.
Trocando em miúdos, é óbvio que ela deveria ter algo a dizer e negar do que foi escrito. Assim como todos. Senão seria chato. Se eu não te assustasse o tempo todo, fosse amoral e despretensioso talvez você nem estivesse aqui. E como ela mesma disse, do alto de toda sua sabedoria, “não vou avaliar seu blog como namorada, mas como uma leitora.” Fiquei com a cara de bunda mais representável do quanto Sr. Óbvio eu estava sendo ao ouvir isso.
Não quero uma mulher que injete em seu cérebro tudo o que eu disser. Que venha com frases feitas me elogiar. Que sempre concorde comigo. A beleza do nosso relacionamento vem daí. Dos momentos em que: estamos constrangendo os moradores do 1202, com nossas conversas sacanas muito altas no pé do ouvido até as brigas em que ela arrebenta copos na parede e eu chuto o meu violão, nós vivemos intensamente.
Tá! Isso parece letra romântica do Steppenwolf, mas é a mais pura verdade. Nosso relacionamento passa ao largo desse mar de superficialidade que preenche os “amores” e “desamores”. Nós nos amamos. No mais estrito e literal sentido de que nos odiamos. O que no fundo quer dizer não viver sem o outro. Seja para falar sobre o perfume que ela exala, dia e noite, e que torna leve a atmosfera de um dia frio ou sobre as milhares de vezes que eu errei, abandonando-a e desfrutando do meu egoísmo, falo com sinceridade. É inevitável. Não há como mentir para uma pessoa com quem eu quero construir algo muito mais sólido do que qualquer dessas demonstrações socialmente aceitas de afeto. Não sou um poço de romantismo. Comigo não tem serenata. Eu toco violão quando ela pede (o que se resume a uma música que ela não sabe o nome – e chama de “música do Jipe” - e que eu não tenho mais criatividade para arranjos de tanto que toco). Não tem caixinha de bombom. Contudo, tem a velhinha que vem todo dia no meu serviço trazer uma trufa que com certeza tem cocaína dentro. Não tem flores (o que significa dizer “não tem dinheiro”), mas tem a massagem nas costas quando ela tem dores.
O nosso amor é braile. Entende-se no toque (E não venha você, com sua mente cheia de pensamentos libidinosos, achar que a metáfora do braile é alguma piadinha interna de cunho sexual entre ela e eu. Estou tentando falar sério aqui. Por favor!). É no carinho, nos arranhões, nos beijos e abraços. É o amor que guerreia para sobreviver, entre a nossa falta de tempo e nossas discussões acaloradas. É: o danado sobrevive. Nos toques leves dos dedos da alma, dos encontrões e topadas de nossas teimosias e no conforto de quando ela dorme em meu peito. É assim que acaba o dia. Ela dorme em cima de mim, e eu não preciso de mais nada. Discutimos e vamos embora. Eu só preciso dela.
Ou seja, eu a amo: exageradamente.
P.S: Não! Isso não foi uma tentativa de aliviar a minha barra na frente da patroa só para ela não perder as esperanças no meu blog.
Não há mais o que ser dito. Eu nem mesmo sei descrever a profusão de sentimentos em que me encontro, imersa em uma série de gostos, cheiros, sorrisos, raiva e Amor. Eu não tenho nada agora a não ser registrar mais uma vez que, você não cabe em estereótipos, que sua reputação comigo sempre foi péssima e por isso confio tanto em você, e que massagem e masturbação são significantes da mesma cadeia associativa...SEXO..rsrsrsrsrs...O que preciso mesmo é dizer que pra nós não há palavras, e pra você consigo o que já disse e escrevi, você me atrai, suas idéias, gestos, projetos, beleza, mau humor, gosto e sexo...VOCÊ ME ATRAI TÃO MISTERIOSAMENTE QUE PRECISO DE SÉCULOS PARA SABER O PORQUE...E eu Amo Você, da forma mais simples e pura que conheço, exagerada e incansavelmente...Quero quebrar mil copos e te odiar ainda mais um montão de vezes, mas quero TUDO..."TODO AMOR QUE HOUVER NESSA VIDA"...Sua Preta.
ResponderExcluiruaUAHUHA, sinceramente nao entendo se vc se encontra nos que escrevem demais em qualidade ou quantidade, que de tanto bater acaba alcançando o objetivo das palavras.
ResponderExcluirMas gostei bastante do estilo, confessador e sem meios-termos, uma declaração de amor pra muitos estranha, pra mim profunda e no tom exato.
E que sejam felizes enquanto aguentarem as porradas um do outro, apesar de ser aparentemente bem mais novo, infelizmente eu entendo como é ;D
parabens cara, voltarei sempre tambem, pode ter certeza.
Humor genuinamente original e uma paixão intensa explodindo por céus não explorados, ultrapassando os limites que o teu tom sarcástico vão tenta mostrar comum. Amei!
ResponderExcluirApesar da exteeeeeeeeeeeeeensããããããããoooooo dos textos (o que não configura, necessariamente, um pecado textual), o ritmo que você consegue impor é do caralho!
ResponderExcluirolha o filipe ai...
ResponderExcluirBem, estou no terceiro texto, levando em consideração que Amanda conhece mais que três textos, eu não achar nada aqui Emo pode não ser nada. Ser tudo ou ser nada?
Lembrei do chapéu de três pontas...
olha o filipe ai, todo crítico!